
Luiz, nos conte sua experiência com o mundo ágil.
Meu primeiro contato com métodos ágeis aconteceu em novembro de 2007, quando participei do treinamento "Certified Scrum Master" realizado pela Teamware em São Paulo. Como tenho uma empresa de desenvolvimento de software, vi que a proposta do Scrum se encaixaria perfeitamente com a cultura da empresa, que não tinha um processo de desenvolvimento bem organizado. De lá pra cá já experimentamos diversas abordagens com a equipe, através do feedback das retrospectivas semanais.
Com o tempo fomos aplicando práticas de XP como integração contínua e programação em par por exemplo e tivémos um grande sucesso.
Sua empresa, Bluesoft, desenvolve sistemas para supermercados. O que de agile vocês praticam no dia-a-dia? Como é o processo de vocês?
Nosso fluxo de trabalho se inicia com o planejamento da iteração na segunda-feira. A equipe estima as tarefas através de um jogo chamado Planning Poker. Na sexta-feira trazemos alguns clientes para participarem da revisão do que foi realizado e nos dar um feedback. Possuímos um quadro de gestão da iteração onde todos podem acompanhar o fluxo de trabalho, desde a equipe de suporte até os clientes que eventualmente nos visitam. Trabalhamos a maior parte do tempo com programação em par, o que ajuda a disseminar o conhecimento entre os desenvolvedores, o que nos ajudou a eliminar as "ilhas de conhecimento" anteriormente existentes.

Até vocês atingirem um grau de maturidade nesse processo, houve algumas etapas. Dentre elas, como foi “vender” esses processos ágeis, de certa forma inovadores, para os clientes? Houve alguma resistência?
A principal resistência aconteceu dentro da própria equipe pois alguns imaginavam que não se adaptariam à algumas práticas de eXtreme Programming, por exemplo. Quanto aos clientes, não houve mudanças significativas. O modelo de comercialização do produto já era "ágil". Na verdade a empresa já tinha uma "cultura ágil", o que facilitou imensamente a definição de alguns processos.

Falando um pouco sobre o Pronto, software para gerenciamento de projetos com Scrum. O que te levou a pensar no Pronto como trabalho final da sua graduação?
O Pronto nasceu da necessidade de organizarmos as requisições de nossos clientes e manter um histórico das mesmas. Anteriormente utilizávamos uma outra ferramenta chamada Trac, que nos limitava em alguns aspectos. Assim, iniciei junto com o André Faria, meu colega da faculdade e amigo de trabalho na Bluesoft, o desenvolvimento deste projeto que acabou sendo disponibilizado como código livre. Aliamos a necessidade da empresa com a vontade de divulgar métodos ágeis na faculdade (FIAP) e conseguimos um apoio enorme do orientador do trabalho, o Prof. Msc. Jakov Surjan.
Acredito que desde um simples projeto de graduação até o Pronto se tornar num software completo para gerenciamento de projetos ágeis, houve um processo de amadurecimento, certo? Como foi esse processo?
O amadurecimento do projeto aconteceu de forma ágil: quando ele estava bom o suficiente para substituir o software anterior decidimos colocá-lo no ar e receber os comentários dos usuários, no caso nossos desenvolvedores e testadores. Após sua implantação já realizamos diversas mudanças, com novas funcionalidades e melhorias de performance.

Ainda sobre o Pronto, os resultados estão acontecendo de acordo com sua expectativa? Como está a aceitação no mundo ágil?
Com a abertura do código fonte imaginávamos que iríamos receber a colaboração de muita gente interessada no projeto, porém isto não aconteceu. Talvez isto aconteça pois o processo de configuração e instalação seja complicado. Nossa ideia é facilitar a instalação nas próximas versões através de um instalador. Também disponibilizaremos em breve alguns screencasts demonstrando como o usamos na Bluesoft, assim as pessoas conseguirão entender os benefícios de seu uso.
Em relação ao mercado de agile no Brasil, em especial ao Scrum, como você vê sua ascenção e quais são os desafios para sua consolidação?
Tenho visto uma grande expansão dos métodos ágeis nos últimos meses através da quantidade de eventos realizados e do grande número de participantes. Vejo que algumas grandes empresas do setor estão se preocupando mais com a qualidade de seus produtos, e com seus colaboradores pois as empresas que possuem uma cultura de agilidade e um ambiente diferenciado são locais desejados para se trabalhar. Infelizmente não vejo isso mudar nos projetos de software contratados pelo governo, o que prejudica o país.
E por fim, que mensagem você deixaria para as empresas que ainda resistem em conhecer e utilizar métodos ágeis?
Não se preocupe em ter a melhor tecnologia, a melhor arquitetura ou com o dinheiro resultante do trabalho. Tenha a satisfação do cliente como seu objetivo final, entregando algo que realmente tenha valor para seu negócio.
Empresas que não possuem uma cultura de melhoria contínua tendem a não se manter no mercado. Faça um teste com uma equipe e veja ótimos resultados aparecerem.
SOBRE LUIZ FAIAS
Luiz Faias é um dos idealizadores do Pronto – Agile Project Management. Faias é bacharel em Sistemas de Informação pela FIAP-SP. Possui experiência de oito anos em desenvolvimento para web com JavaEE e 2 anos de trabalho com métodos ágeis. É diretor da Bluesoft, sediada em São Paulo.
SOBRE O PRONTO
O projeto "Pronto - Agile Project Management" surgiu do trabalho de conclusão do curso "Bacharelado em Sistemas de Informação" pela FIAP - Faculdade de Informática e Administração Paulista em 2009. Objetiva o controle das requisições de clientes e das tarefas em desenvolvimento de uma equipe que aplica principalmente o método Scrum. Atende às características deste método como as reuniões de planejamento, revisão e retrospectiva, além do controle de iterações (sprints).
Criado por André Faria Gomes e Luiz Faias Jr com base nas melhores práticas experimentadas ao longo de dois anos de trabalho com métodos ágeis na empresa Bluesoft. Disponível para colaboração sob a licença de código livre CC-GPL (Creative Commons General Public License).
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